Do Sangue que Verte Veneno
Nas sombras de cada refúgio<br/> De pedra enegrecida pelo ódio<br/> A vontade brusca de um regresso precito<br/> Cativo e precipitado do passado<br/> Percorrido por mim, nauta das profundezas<br/> <br/> A fome e a prostração<br/> As entranhas revoltas da doença<br/> Todos os chamamentos do corpo<br/> Alinhados em comunhão <br/> Submetidos ao blasonado esforço<br/> Expiatório, desventurado<br/> <br/> Os ventos desprendidos da tarde dourada<br/> Sopram o norte em caminhos estreitos<br/> Montanhas e vales agrestes do presságio niveal <br/> Espião entre nuvens e marés<br/> Rábido no seu propósito<br/> <br/> A excelsa solidão<br/> Têmpera indelével da eternidade<br/> Sinto a sua força a elevar-me<br/> Da inexistência às lembranças do poder<br/> Num confronto desigual<br/> Entre o grilho e o pulso macilento<br/> <br/> Revolvo-me em angústia<br/> Vislumbro em assombro<br/> Este tempo que se dilui e a insanidade<br/> Que me influi com fulmíneos rasgos<br/> Ingente resfolegar que exaure e adormece<br/> Como o ténue e minguante arrebol<br/> <br/> Cubro-me de negro no trono da noite<br/> Um manto de luzes mortas e distantes<br/> Pesarosa e com promessas de ser eterna<br/> Embrido-me na sua jerarquia opaca <br/> Sob o tenebroso pranto do luar<br/> <br/> Nos recantos de memórias e férvidas intrigas<br/> Antre o pó cerimonial de manuscritos<br/> Quero ser a alquimia perdida<br/> O ritual de palavras que condena<br/> A ausência de perdão<br/> O retumbante castigo soturno<br/> <br/> Verto o sangue que envenena a vida<br/> Sou da Morte que me seduz, bafienta<br/> Calabouço de incautos<br/> A quem a culpa impregnou de tormento<br/> <br/> Sou portador da palavra laudativa à Morte<br/> Sob a Lua arcana de superstições<br/> E o seu brilho ensandecedor<br/> Qual jugo me preme como obsessão<br/> Na origem de crendices e ruína<br/> <br/> Rendi-me servo de sacrifícios<br/> Da tirania da vingança<br/> Até que o pêndulo inevitável<br/> Dite a hora industriosa<br/> Adornada de sorrisos ouropel<br/> E da lâmina manchada pelos escolhidos<br/> Usurpadores do azo para o seu vernáculo fim<br/> <br/> Vinga-te Morte!<br/> Para esmagar esta existência pungente<br/> Com declarada e perniciosa ambição<br/> Persisto no Mundo à deriva<br/> Em lenta agonia dissimulada<br/> Na medrança da insolência<br/> <br/> Arrojam-se miserandas presciências <br/> Em que o Mundo é uma acendalha<br/> Na minha fogueira de desvario,<br/> Sou a centelha que perpetua o fogo<br/> Com o impetuoso sibilar das chamas<br/> Em volutas de fumo e poalha<br/> <br/> Cantem vozes em uníssono<br/> Ao denodo da minha urdidura<br/> Se me resta laivo de humanidade <br/> Será executado como inimigo torpe<br/> Decretem perpetuamente o meu prélio<br/> Rendam-se ao espanto da vossa queda
Submitted by Iron_Wraith — Jun 06, 2026